Dicionário F! #4. Família

fa•mí•lia (substantivo feminino). 1. Agrupamento de indivíduos reunidos tradicionalmente por algum grau de parentesco ou pelo desejo de partilhar vidas em comum, acarretando algum grau de intimidade ou domesticidade em suas relações. 2. Por extensão, trata-se também de designação comum dada a conjuntos de elementos reunidos por partilharem características comuns ou convergentes, como em “família tipográfica” ou “família de componentes”. 3. Famílias podem ser formadas por casais, trisais ou por relações de poliamor, envolvendo indivíduos homo ou heterossexuais, cis ou trans, reunindo filhos, netos, bisnetos, agregados e até mesmo animais não humanos de estimação. Normalmente essas pessoas assumem relações de familiaridade porque elas simplesmente se gostam. E ninguém tem nada a ver com isso. 4. Sugere-se cuidado e cautela apenas quando ao substantivo “família” se acrescentam as perigosas “tradição” e “propriedade”. Neste caso, não se aproxime. Sério: faz mal à saúde e pode causar ditaduras que duram 21 anos.

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Fora de prumo F! #4. Família tradicional brasileira

Existe uma tradicional família brasileira? E o que a varanda gourmet tem a ver com ela?

O mercado imobiliário tem papel central na definição de como as pessoas moram — ainda que o morar cotidiano tente encontrar brechas nos algoritmos definidos pelas incorporadoras para ficar um pouquinho mais longe das planilhas de Excel e um pouco mais perto da vida real. Varandas gourmet, espaços para garage band, spas e salas de ginástica que ninguém usa: na produção residencial para a classe média e as elites, são muitas as artimanhas do mercado para convencer as pessoas a pagarem cada vez mais por menos. Será que é assim que a arquitetura de mercado aplica o velho chavão “menos é mais”?

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Dicionário F! #3B. Minhocão

mi•nho•cão (substantivo masculino, aumentativo de “minhoca”) 1. Um cartão postal e patrimônio cultural da cidade de São Paulo 2. Designação popular do atual Elevado João Goulart, antigo Elevado Costa e Silva. 3. Intervenção urbana realizada no contexto da ditadura militar com a intenção de estabelecer uma ligação expressa entre o centro de São Paulo e a Zona Oeste da cidade — dizem as más línguas que para facilitar o transporte diário do então prefeito Paulo Maluf de sua casa para a sede de suas empresas, mas na verdade o motivo deve ter sido arranjar uma desculpa para gastar uma fortuna em concreto armado. 4. Objeto de disputa entre aqueles que acham que ele deve ser demolido, transformado em parque ou mantido como está.

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F! 3b. DROPS: Um High Line tropical?

Afinal, por que chama “Minhocão” se ele não é subterrâneo?

Em fevereiro de 2019 veio a público o mais recente projeto de intervenção no Elevado João Goulart, artéria das mais importantes na rede rodoviária de São Paulo. Mais conhecido pela popular alcunha de “Minhocão”, o elevado — que originalmente homenageava um dos ditadores do Regime Militar, o general Costa e Silva — foi construído durante a primeira gestão de Paulo Maluf como prefeito da cidade de São Paulo nos anos 1960 e desde então acumula polêmicas e debates: apontado como uma fissura e cicatriz urbana por muitos urbanistas, que o consideram símbolo de uma cidade voltada exclusivamente para o automóvel, trata-se de um elemento urbano que teria colaborado com a queda dos preços da terra nos bairros que ele corta e com a sua suposta “degradação”. Alvo de inúmeros projetos de intervenção nunca implantados e de uma contínua discussão em torno de sua demolição ou de sua transformação em parque, o destino de ao menos um dos trechos do Minhocão parece ter sido definitivamente alterado para uma estrutura de parque aéreo com a divulgação do mais recente projeto da Prefeitura. Seria o Minhocão nossa versão tropical do famoso High Line de Nova Iorque?

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Miniconto F! #3

Camarada, você já devia saber. Primeiro você se posiciona. Depois você descreve o que vê a partir deste ponto de vista. Depois você destrói o que não está de acordo com esta perspectiva. Depois você ergue o novo. Depois começa tudo de novo.

A revolução é permanente. Tem que ser. Ou dá no que deu por aí.

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Dicionário F! #3. Plano

pla•no (substantivo masculino). 1. Entidade geométrica bidimensional formada pela projeção de uma linha reta em qualquer direção. 2. Superfície sem irregularidades. 3. Descrição e encadeamento de objetos, diretrizes, metas, estratégias e tarefas voltadas à realização de alguma atividade. 4. Obsessão de planejadores e outras criaturas modernas que resolveram projetar a geometria para fora dela em direção a todas as dimensões da nossa vida. 5. Em decorrência disso, talvez seja por isso que os planos que fazem para nossas sociedades e cidades tornem nossas vidas tão planas. 6. Conforme a famosa frase de livros de auto-ajuda: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.” (John Lennon).

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Fora de prumo F! #3. Heróis ou ameaças?

A arquitetura, o urbanismo e o design ajudam a promover mudanças sociais?

Em 1926 o arquiteto Le Corbusier lançava uma pergunta ao mundo: “Arquitetura ou revolução?” Sua resposta (“arquitetura”, naturalmente) sugeria que os efeitos da prática da disciplina no meio social contribuiriam para esforços de reforma social e política. Neste caso, sem recorrer à revolução, os arquitetos contribuiriam à formulação de uma nova ordem social atuando diretamente no projeto de novos espaços, produtos e cidades. O mestre franco-suíço explicitava seu posicionamento político (afeito à ordem e contrário a rupturas radicais) e a dimensão ideológica de sua arquitetura. Por outro lado, anos mais tarde, a geração de arquitetos liderada por Vilanova Artigas no Brasil bradava pela discussão da função social da arquitetura, colaborando para a construção de um espírito social mais progressista e eventualmente até revolucionário. Na França, seus contemporâneos ligados ao situacionismo, contudo, desconfiavam do papel ideológico da arquitetura e negavam qualquer possibilidade de transformação pela via da produção arquitetônica. Independente da vertente política e teórica, contudo, o tema da “função social da arquitetura” (ou do design e do urbanismo) foi recorrente ao longo do século XX. Que efeitos essa discussão tem hoje? Qual seu legado? As práticas projetuais, afinal, são ameaças ou oportunidades de transformação?

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