Miniconto F! #3

Camarada, você já devia saber. Primeiro você se posiciona. Depois você descreve o que vê a partir deste ponto de vista. Depois você destrói o que não está de acordo com esta perspectiva. Depois você ergue o novo. Depois começa tudo de novo.

A revolução é permanente. Tem que ser. Ou dá no que deu por aí.

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Dicionário F! #3. Plano

pla•no (substantivo masculino). 1. Entidade geométrica bidimensional formada pela projeção de uma linha reta em qualquer direção. 2. Superfície sem irregularidades. 3. Descrição e encadeamento de objetos, diretrizes, metas, estratégias e tarefas voltadas à realização de alguma atividade. 4. Obsessão de planejadores e outras criaturas modernas que resolveram projetar a geometria para fora dela em direção a todas as dimensões da nossa vida. 5. Em decorrência disso, talvez seja por isso que os planos que fazem para nossas sociedades e cidades tornem nossas vidas tão planas. 6. Conforme a famosa frase de livros de auto-ajuda: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.” (John Lennon).

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Fora de prumo F! #3. Heróis ou ameaças?

A arquitetura, o urbanismo e o design ajudam a promover mudanças sociais?

Em 1926 o arquiteto Le Corbusier lançava uma pergunta ao mundo: “Arquitetura ou revolução?” Sua resposta (“arquitetura”, naturalmente) sugeria que os efeitos da prática da disciplina no meio social contribuiriam para esforços de reforma social e política. Neste caso, sem recorrer à revolução, os arquitetos contribuiriam à formulação de uma nova ordem social atuando diretamente no projeto de novos espaços, produtos e cidades. O mestre franco-suíço explicitava seu posicionamento político (afeito à ordem e contrário a rupturas radicais) e a dimensão ideológica de sua arquitetura. Por outro lado, anos mais tarde, a geração de arquitetos liderada por Vilanova Artigas no Brasil bradava pela discussão da função social da arquitetura, colaborando para a construção de um espírito social mais progressista e eventualmente até revolucionário. Na França, seus contemporâneos ligados ao situacionismo, contudo, desconfiavam do papel ideológico da arquitetura e negavam qualquer possibilidade de transformação pela via da produção arquitetônica. Independente da vertente política e teórica, contudo, o tema da “função social da arquitetura” (ou do design e do urbanismo) foi recorrente ao longo do século XX. Que efeitos essa discussão tem hoje? Qual seu legado? As práticas projetuais, afinal, são ameaças ou oportunidades de transformação?

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Dicionário F! #2B. Anatidaefobia

A•na•ti•da•e•fo•bi•a. (substantivo feminino) 1. Patologia associada ao medo de patos. Patos aqui, patos acolá, sobretudo patos gigantes estacionados em rodovias de beira de estrada onde se vendem ovos de pato. 2. Condição verificável sobretudo em arquitetos que nutrem especial atenção por galpões decorados e particular aversão a pinguins de geladeira. 3. A condição diametralmente oposta é a anatidaefilia, uma parafilia sexual caracterizada pela extrapolação da libido quando em contato com patos. A anatidaefilia se verificou com particular intensidade entre 2015 e 2016 em indivíduos irracionalmente enfurecidos vestindo trajes verde e amarelos reunidos na Avenida Paulista ao som de Alexandre Frota e Olavo de Carvalho.

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F! #2b. DROPS: A•na•ti•da•e•fo•bi•a

Seguindo nossa conversa do episódio anterior, tentamos desbravar a selva das funções simbólicas em arquitetura, urbanismo e design.

Continuando a conversa iniciada no episódio F! #2 do Fora de prumo, neste programa falamos sobre a famosa tese do casal Robert Venturi e Denise Scott-Brown de que as arquiteturas podem ser divididas em dois grandes grupos: de um lado, as arquiteturas-pato, de outro, os galpões decorados. Drops sobre design que deu errado, design que deu certo mas deu errado, design que nem queria dar certo e a semântica na arquitetura.

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Miniconto F! #2

A grana hoje mora nesses prédios de vidro.
Quem teve essa ideia tava com o que na cabeça?
Um diamante? O sapatinho da Cinderela?

O reflexo ao sol oprime
não só olhos, também a clareza
da mente que se recusa a aceitar que é assim que funciona.

Como deve ser lá dentro?
Gravatas e saltos maximizando lucros.
E é só? Pra isso que serve essa bijuteria?

Uma vidraça se estilhaça.
Foi uma pedra.
Eu a arremessei?

Texto escrito por Angelo Regis em fevereiro de 2019 e lido no episódio F! #2 do Fora de prumo.

Dicionário F! #2. Usuário

u•su•á•rio. (Substantivo masculino. Feminino: usuária.) 1. Não, não se trata de alguém que faz uso de substâncias entorpecentes (aliás: nada contra, pelo contrário). 2. Aquele que faz uso de algo (e ai! de quem chamá-lo de “cliente” ou “cidadão” — mas no final parece que dá no mesmo). 3. A partir de meados do século XX trata-se do objeto preferencial do discurso supostamente consciente de arquitetos e designers: o usuário é uma abstração ahistórica, sem classe, sem cor, sem etnia, sem gênero. 4. Sabe-se lá como, contudo, é dessa abstração que durante muito tempo se extraíram supostos requisitos de desempenho para o desenvolvimento de projetos.

Para saber mais sobre o papel do usuário e da função no debate sobre arquitetura e design, ouça o episódio F! #2 do Fora de prumo.

Imagem: Optical Spy, 2014.